NOEMI: UMA JORNADA À CASA DO PÃO
- Jeane Chaves
- 28 de ago. de 2025
- 5 min de leitura
LEIA: RUTE 1-4
Apesar do livro ter como título o nome de Rute, uma mulher improvável e relevante na história do nascimento do Messias, o conteúdo dele também chama atenção para a história de uma outra mulher protagonista do livro: Noemi.
O relato bíblico sobre Noemi já começa em certa altura da sua história de vida, mas podemos ter pistas de que, antes disso, ela era somente uma mulher comum, que vivia uma vida comum com sua família até que é levada a se mudar da sua terra, Belém, para outra região. É a partir daqui que a Bíblia mostra a história de Noemi sendo acometida por diversas dificuldades, tragédias e situações traumáticas, e, pelo que se aponta a narrativa, em um curto período de tempo:
Fome; escassez de recursos; emigração; submissão à um novo contexto cultural por circunstância involuntária; luto; viuvez; perda dos filhos (outros lutos); provavelmente, enfrentamento de enfermidades na família; dependência da ajuda de outros para sobreviver. Todos esses foram episódios que Noemi enfrentou. Situações que fugiam ao seu controle.
UM PASSO DE FÉ: O INÍCIO DA JORNADA
"Quando Noemi soube em Moabe que o Senhor viera em auxílio do seu povo, dando-lhe alimento, decidiu voltar com suas duas noras para a sua terra." (Rute 1:6)
Noemi recebe a informação de que o favor de Deus estava sobre Belém e toma uma importante decisão de retornar para lá. E aqui começa a Jornada de Peregrinação de Noemi até Belém, a Casa do Pão. A jornada de uma mulher ferida, marcada em sua história por várias calamidades e circunstâncias adversas até onde ansiava encontrar ajuda do Senhor.
A peregrinação de Noemi até Belém representa mais do que uma saída geográfica de um local para outro, mas uma jornada espiritual de uma pessoa num cenário de desesperança em busca de redenção, favor e restauração de Deus.
A Jornada até Belém requeria:
- Esforço: Noemi já tinha uma idade avançada e pouco vigor. Ela não estava em condição perfeita e favorável para uma viagem nos tempos antigos.
- Confiança e dependência em Deus: Noemi era mulher, idosa, com suas limitações e sozinha na estrada. As jornadas de uma região a outra eram difíceis naquela época e ainda mais perigosas para mulheres.
- Fé: Dar o primeiro passo crendo que valeria a pena e que ela chegaria no seu objetivo final. Toda jornada começa com esse primeiro passo de fé.
- Quebra de orgulho: Ninguém quer fazer o caminho de volta como Noemi retornou, expondo seus fracassos, vulnerabilidades e até o questionamento das pessoas. (Rute 1:21a).
A COMPANHIA NA JORNADA
"Assim ela, com as duas noras, partiu do lugar onde tinha morado. Enquanto voltavam para a terra de Judá" (Rute 1:7)
Noemi não partiu sozinha. As suas noras seguiram viagem junto com ela. Porém, em certa altura da jornada, Noemi tenta fazer com que elas desistam de acompanhá-la. Podemos interpretar essa atitude de Noemi a partir de pelo menos duas perspectivas distintas:
- Altruísta: Se preocupou mais com o bem-estar das noras do que com seu próprio conforto. (Rute 1:8-9)
- Isolamento e derrotista: Preferiu andar só em sua dor e na sua jornada em busca do favor de Deus.
De fato, aquela jornada era a decisão de Noemi, e suas noras não tinham uma obrigação perante a lei de acompanhá-la, mas Deus a agraciou com a amizade leal de Rute. Noemi talvez, com todas as suas limitações não teria conseguido chegar a Belém sem o apoio dela.
Da mesma forma Deus nos agracia. Não devemos nos privar da providência auxiliadora daqueles que o próprio Deus nos presenteia como companhia para nossas jornadas em fé. É por isso que, também para o cristão, é tão importante estar inserido em uma comunidade. Não apenas se denominar religioso ou frequentar programações eclesiásticas, mas estar entrelaçados em laços reais com pessoas com quem pode contar e compartilhar suas peregrinações.
O COMPORTAMENTO DE NOEMI DURANTE A JORNADA
Noemi não se sentiu de primeiro totalmente pronta e plena para começar aquele caminho até Belém. Pelo contrário, o texto nos aponta que ela iniciou a sua jornada de fé ainda carregando muitas dores, muitas mágoas, questionamentos, amarguras. Ela:
- Parecia achar que seu sofrimento era maior do que o dos outros ("para mim é mais amargo do que para vocês” - Rute 1:13)
É correto que algumas circunstâncias tornava a situação mais difícil para Noemi do que para suas noras como ser mais avançada em idade e não ter pela frente tempo de vida suficiente para novamente se casar ou gerar filhos, entre outras coisas. Mas o comportamento dela pode nos dar vestígios também de uma vitimização egoísta que não tem por consideração que outro também sofre, também tem problemas, também pode estar nesse momento lidando com diversas situações. (veja, não estamos fechando um veredito sobre Noemi, mas analisando possíveis interpretações para a narrativa do texto).
“Eu sou a vitima".
"Você não sabe o que eu passei".
"Minha dor é maior do que a sua”.
São algumas das falas que nós também adotamos quando nos colocamos dentro desse tipo de comportamento em que tudo que conseguimos nos concentrar é na nossa dor.
- Culpava a Deus por seu sofrimento (“a mão do Senhor voltou-se contra mim! ", "O Senhor colocou-se contra mim! O Todo-poderoso me trouxe desgraça!" - Rute 1:13 e 21)
Noemi expressava ver Deus como o culpado direto do seu sofrimento, ou pelo menos o permissor dele. Também não estamos distantes disso. Até mesmo já no Éden, Adão de certa forma transferiu para Deus parte da responsabilidade por ele ter comido do fruto proibido ("Disse o homem: 'Foi a mulher que [tu] me deste por companheira que me deu do fruto da árvore, e eu comi'." - Gênesis 3:12), quanto mais nós em situações que não tivemos uma responsabilidade ou escolha direta poderemos vir a fazer o mesmo. No entanto, Deus não se assusta ou se abala com isso. Há mais proveito em um coração sincero diante do Senhor em suas incompreensões humanas do que em uma alma cheia de ressentimento disfarçado.
A CHEGADA EM BELÉM
"Prosseguiram, pois, as duas até Belém. Ali chegando, todo o povoado ficou alvoroçado por causa delas. 'Será que é Noemi?', perguntavam as mulheres. Mas ela respondeu: 'Não me chamem Noemi, chamem-me Mara, pois o Todo-poderoso tornou minha vida muito amarga! De mãos cheias eu parti; mas de mãos vazias o Senhor me trouxe de volta. Por que me chamam Noemi? O Senhor colocou-se contra mim! O Todo-poderoso me trouxe desgraça!'. Foi assim que Noemi voltou das terras de Moabe, com sua nora Rute, a moabita. Elas chegaram a Belém no início da colheita da cevada." (Rute 1:19-,22)
Noemi, então, chegou em Belém, a casa do pão. Chegou ao lugar sobre onde ouviu dizer que o favor e a restauração de Deus estava presente. Mas ela não chegou lá bem. Chegou ainda quebrada, até mesmo com uma aparência desfigurada (o sofrimento é capaz de nos mudar) e uma identidade corrompida. Somente ao longo da estadia e da permanência dela em Belém, o seu estado foi transformado e a conclusão da sua história totalmente convertido de mal para bem.
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A Jornada de Noemi até Belém se iniciou com um passo de fé em busca daquilo que Deus ainda poderia fazer mesmo em circunstâncias muito difíceis de se haver esperança. Belém, o palco da restauração de Noemi, que tem por significado do nome "casa do pão" , foi a mesma pequena cidade onde séculos mais tarde, Jesus nasceu. E Cristo afirmou sobre si mesmo: “eu sou o pão da vida." (João 6:48). Em ir à direção desse Pão Vivo que desceu do Céu está a esperança para as nossas histórias.
Por: Jeane Chaves Ramos



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